Um Superman alien(ado)

a.li.e.nar
1. (prep. de) tornar-se alheio, indiferente a; afastar-se emocionalmente de


(Nota: este ensaio contém spoilers leves de Man of Steel)

A coisa mais importante a se considerar antes de falar sobre um personagem como este (que é meu personagem favorito) é: quando se fala do Superman, de QUAL deles estamos falando?

Cada geração teve o “seu” Superman. As décadas de 30 e 40 viram um Superman vigilante que fazia justiça com as próprias mãos e não se importava em intimidar os criminosos com sua força; as décadas de 50 e 60 viram um Superman que achava maneiro casar o Jimmy Olsen com uma Gorila e que movia planetas como eu movo minha mobília. As décadas de 70 e 80 viram um Superman “escoteiro”, confiante e seguro de si, que sempre tomava as decisões corretas e as décadas de 90 e 2000 viram um Superman mais vulnerável, tanto física quanto emocionalmente.

E quanto ao Superman de hoje? Como ele se parece? Bem, acho que Man of Steel nos dá alguma resposta.

Se o Superman da minha geração parecia mais um deus do novo testamento cristão (com uma moral inabalável e uma infinita capacidade de perdoar, além de um discernimento ímpar do certo e errado), este novo Superman está mais para um deus das mitologias antigas como a Grega, Egípcia ou Nórdica: uma divindade extremamente poderosa com seus próprios interesses, com o mundo como palco para suas excentricidades (muito embora o diretor se esforce para traçar paralelos entre o herói e Jesus Cristo).

O Superman de Man of Steel não é mais dicotômico: ele não sabe ao certo a linha que divide o “bem” do “mal”, um claro reflexo de uma sociedade (a americana) que, antes orgulhosa dos seus feitos, hoje não se vê mais como um exemplo para o mundo, mas como uma comunidade que, como qualquer outra, tenta encontrar seu lugar entre outros, de culturas tão diferentes. Assim como Superman, que tenta se encontrar no mundo ao descobrir que não faz parte dele.

Man of Steel demonstra claramente em sua narrativa e no seu conceito, a distância entre as gerações atuais e as anteriores. Se até poucas décadas as mudanças eram relativamente graduais e, por mais diferentes que fossem as gerações, elas ainda conseguiam encontrar um ponto em comum, hoje os novos tempos fizeram com que as gerações atuais parecessem quase irreconhecíveis aos “velhos”. Tudo “culpa” das novas tecnologias, que criaram uma geração de pensamento não linear e capazes de fazer tantas coisas ao mesmo tempo que deixam qualquer “velho” confuso.

Essa não-linearidade é muito clara em Man of Steel. Embora o recurso de contar uma história através de flashbacks não seja nova, nem exclusiva da nova geração, a rapidez com que a história vai e vem no tempo, e a velocidade com que as coisas acontecem tornam difícil até de refletir sobre o que você está vendo antes dela terminar.

Consequências dos novos tempos também se refletem nos personagens, já não mais tão ingênuos quanto antigamente. Lois Lane passa do desconhecimento passivo da identidade do herói para uma guardiã ativa de seu segredo, não mais alheia à dupla identidade do homem de aço.

Kal-El, por sua vez, não é mais o escoteiro ingênuo que sabe muito bem distinguir o certo do errado; é um homem confuso do seu lugar no mundo, tentando dar sentido a uma vida que nem sempre tem respostas para tudo. Isso traz um contraste bastante irônico: ao tornar o Superman mais humano, os autores criaram um Superman mais distante da humanidade, que lembra vagamente mais um Doutor Manhatan (de Watchmen) do que alguém que se identifica com a própria humanidade com a qual ele cresceu.

Mas, se os tempos trouxeram para a história pessoas mais reais, também tiraram muito da ingenuidade característica das histórias mais clássicas de Super-herói. O romantismo bobo, as desculpas ingênuas – e que colavam – para manter a identidade, agora são coisas do passado. Aliás, se tem uma coisa que o novo Superman deixa bem claro para o espectador é que ingenuidade é coisa do passado.

O fim da ingenuidade é representada pelo vilão da história. General Zod não é mais aquele arquétipo de comunista que, o que quer que fizesse, tinha que ser maligno. O novo Zod, como se convencionou a ver os vilões nessa sociedade menos certa de tudo, é uma vítima das circunstâncias. Com seu destino geneticamente atrelado à Krypton e sua sociedade, o vilão é basicamente um fundamentalista que não tem escolha a não ser seguir aquilo no qual a sociedade o moldou para acreditar. Isso fica claro quando chama de “heresia” a tentativa bem-sucedida de Jor-El de criar o primeiro Kryptoniano natural, capaz de fazer sua própria escolha.

E é aí que reside a grande mensagem do filme: a escolha. A restrição da liberdade de escolha foi, em última análise, a causa da decadência e subsequente extinção da sociedade Kryptoniana. Uma contundente mensagem numa época em que muitos setores fundamentalistas buscam impor seus valores sobre outros. E a resposta para o fundamentalismo é bem clara, segundo os realizadores do filme: Não existe diálogo. A única solução é cortar o mal pela raiz.

Então, qual é o Superman de Man of Steel? Que Homem de Aço será deixado para as próximas gerações?

É difícil dizer. No passado, uma das grandes questões que permeavam as histórias do Superman era se o herói, ao ajudar demais, não estaria na verdade prejudicando o próprio desenvolvimento da humanidade, que deixaria de aprender a “caminhar com as próprias pernas”. O Superman interpretado por Henry Cavill em Man of Steel, assim como a geração atual, tem muitas dúvidas, mas não quanto a essa questão em particular: cada um escolhe o que fazer da sua vida, incluindo o próprio Homem de Aço.


Nome do Autor

Rafael Rodrigues

Filósofo, redator publicitário, promotor da ciência, roteirista de quadrinhos, professor de informática e pseudoblogueiro. Um homem que gosta de coisas simples, como Quadrinhos, Cinema e Ciência. Sabe, coisas normais.

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