Psychoville

“Eu fiz um mal assassinato”





Tema Macabro




Não é incomum que o terror encontre em outros gêneros uma companhia adequada para contar uma história; aliás, é assim que tem sido as histórias de terror desde muito tempo. Mas existem gêneros que, num primeiro momento, não só seriam considerados conflitantes, como completamente incompatíveis com o terror, como no caso da comédia. E no entanto, a mistura entre estes dois gêneros é tão comum que muitos nomearam-no como um subgênero, o “terrir”. É claro que na grande maioria das vezes estes elementos não vêm equilibrados; é muito comum que um deles prevaleça. É o caso de filmes como Drácula – Morto mas feliz, que na verdade é um filme de comédia com elementos de histórias de terror; ou A volta dos Mortos Vivos (não confundam com nenhum clássico do Romero), que usa tons de comédia, mas é essencialmente uma película de terror.

Com gêneros tão díspares, é de se esperar que um acabei prevalecendo sobre o outro, o que não diminui a história, mas impede uma experiência diferenciada para o leitor/espectador, porque no fim das contas elas acabam ficando dentro das limitações do gênero predominante.

É difícil ver histórias que equilibrem tão bem terror e comédia. Zombieland foi um exemplo, tímido, mas bem sucedido desta tentativa. Mas definitivamente nenhuma, pelo menos nas últimas décadas, conseguiu mesclar humor e terror de forma tão competente quanto Psychoville.



Um palhaço maneta e rabugento, um anão que trabalha no teatro, a mãe de um bebê boneco, um colecionador cego e uma mãe e filho entusiasta de serial killers. Só essa lista de personagens já é o suficiente para perceber que Psychoville não segue muito as convenções de uma história acessível a todos os tipos de público. Some isso a uma série que mistura comédia, horror, humor negro, referências diversas e muita coragem, e temos uma das séries mais bizarras, inusitadas e inteligentes das últimas décadas.

Criada por dois dos idealizadores do programa britânico The League of Gentleman, Psychoville traz a história dos personagens citados acima buscando viver suas vidas normalmente (ou o mais normal que eles conseguirem), até que ameaças feitas por uma estranha figura os faz relembrar de um passado em comum que eles gostariam de esquecer.

Psychoville teve vida curta, durou apenas duas temporadas de 7 episódios cada, ligados por um especial de Halloween. Mas contou com um roteiro bem elaborado, diálogos inteligentes, muito humor negro e, especialmente, muito humor-limite. Eu sei que é comum eu dizer isso na maioria dos posts desta coluna, mas eu falo sério quando digo que Psychoville não é para qualquer um. Mas se você for capaz de ir além das convenções e clichês geralmente estabelecidos pela mídia e estiver disposto a entrar de cabeça na história, você provavelmente terá uma experiência bastante dferenciada em termos de “terrir”.



Curiosidades:
- Os criadores de Psychoville, Reece Shearsmith e Steve Pemberton, interpretam diversos dos personagens da história, tanto protagonistas como coadjuvantes. A transformação dos dois é realmente impressionante, e muitas vezes o espectador sequer percebe que papéis diferentes estão sendo feitos pela mesma pessoa;
- Embora o fim da primeira temporada termine com um enorme gancho, a segunda temporada pode ser vista como algo bem distinto da primeira, especialmente em tom: enquanto a temporada inicial buscava influência no terror, a última tinha um estilo mais conspiratório e menos macabro;
- O título da série veio do nome dado ao programa The League of Gentleman quando este passou no Japão e na Coréia.

Nome do Autor

Rafael Rodrigues

Filósofo, redator publicitário, promotor da ciência, roteirista de quadrinhos, professor de informática e pseudoblogueiro. Um homem que gosta de coisas simples, como Quadrinhos, Cinema e Ciência. Sabe, coisas normais.

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