A Praga da Dança - Uma história real

"Não é surpresa que a verdade seja mais estranha que a ficção. Afinal, a ficção tem que fazer sentido."
Mark Twain







Tema Macabro



No gênero de terror, estamos acostumados a lidar com as mais inusitadas e criativas histórias e situações, muitas que nos parecem bastante críveis, seja pelo realismo dos relatos ou pelas nossas próprias crenças, outros sabemos que são completamente inverossímeis, mas não menos assustadores.

Mas se tem uma coisa que aprendi por me interessar por este tipo de coisa, e principalmente depois que comecei a fazer alguns posts sobre o sobrenatural fora da ficção, foi que não são raras as vezes em que a realidade é muito mais estranha que os filmes.

Em 1518, numa cidade francesa chamada Estrasburgo, uma mulher chamada Frau Troffea começou a dançar fervorosamente sem parar. A dança durou de 4 a 6 dias, mas neste ponto, cerca de 34 pessoas haviam seguido o exemplo da mulher. Em um mês, havia mais de 400 pessoas fazendo o mesmo, muitos dos quais acabaram morrendo por desidratação, ataque cardíaco, derrame, desnutrição ou simplesmente por pura exaustão. Diz a lenda que isso até podia ser uma espécie de bloco carnavalesco involuntário, onde ninguém queria dançar, mas não conseguia parar (um flashmob reverso?)

Uma história interessante, misteriosa e bizarra, que parece ter saído da cabeça de algum roteirista muito criativo. Mas aconteceu de verdade. E, diferente de casos como o de Robbie Mannhein e o da Família Lutz, a “Praga da Dança de 1518”, como ficou conhecida possui extensa documentação histórica, registros médicos, sermões, menções na imprensa local, e até atas do conselho de Estrasburgo sobre o caso.

Mas então, o que diabos realmente aconteceu na cidade de Estrasburgo naquele ano?

Como sempre acontece nestes casos, existe muita discussão sobre o que pode ter ocorrido e, durante esses quase 500 anos, muitas explicações sobre o fenômeno foram ouvidas e debatidas. À época, foram atribuídas ao incidente causas astrológicas e sobrenaturais, mas mais recentemente alguns especialistas sérios tentaram encontrar uma causa mais plausível para o fenômeno.

Uma das causas atribuídas ao incidente pelo historiador John Waller são os chamados Distúrbios Psicogênicos em Massa (mais popularmente conhecidos como Histeria em Massa), um fenômeno curioso que começa de forma oposta ao efeito placebo (ao invés da pessoa pensar algo positivo, pensa algo negativo) e que se “espalha” para outras pessoas como se fosse uma doença transmissível, como o ocorrido em 2007 num internato próximo à cidade do México, onde cerca de 600 meninas do local passaram a ter sintomas bizarros como dificuldade para andar, febre e náuseas sem nenhuma explicação aparente.

Outros sugerem Ergotismo, um efeito do longo período de envenenamento por Ergot, um fungo encontrado no trigo e em outros tipos de cereais. Efeito semelhante ocorreu recentemente no Sudão, quando mais de 100 pessoas passaram a rir histericamente após ingerir um mesmo tipo de trigo estragado.

Já o sociologista Robert Bartholomew atribui o evento ao chamado “Êxtase religioso”, um estado de consciência alterado devido à rituais ligados à fortes crenças. Outros especialistas também atribuem à doenças como Epilepsia e Coréia, embora seja improvável que tantas pessoas tenham se tornado epilépticas do nada.

Outra “explicação” (colocado entre aspas porque, na verdade, não explica muito) é um fenômeno conhecido como “A Dança de São Vito”. Também conhecida como Coréia de Sydenham, a Dança de San Vito é um distúrbio neurológico característico da febre reumática, constituindo-se um dos critérios maiores para o seu diagnóstico. Os movimentos espasmódicos incontroláveis podem começar sua manifestação de forma lenta e gradual. É uma das “Dancing manias”, fenômenos sociais que ocorreram principalmente na Europa entre os séculos 14 e 18.

Ainda não há um consenso sobre o que realmente causou a chamada “Praga da Dança de 1518”, mas é fato que o incidente ocorreu, pois está devidamente registrado. Mas talvez nunca saibamos de verdade o que se passou. Resta apenas especularmos.

E você, o que acha?


Curiosidades:
- Após este incidente em 1518, foram documentados outros 6 casos semelhantes. O mais recente que se conhece aconteceu em Madagascar, em 1840. Todos ainda sem explicação.
- Frau Troffea, a francesa que iniciou todo o incidente, dançou de 4 a 6 dias, como foi dito no post. Mas segundo os médicos, isto seria humanamente impossível: ela já teria de estar morta depois do 3º dia. Ou seja, a menos que os registros tenham errado nos cálculos, Frau Troffea pode ter dançado por um dia ou mais já estando morta, como um zumbi.



Na próxima Madrugada:
Às vezes quando você está isolado em uma casa com um monte de desconhecidos sem saber o que está acontecendo no resto do mundo... É melhor continuar lá. Na próxima semana, Deadset.

Nome do Autor

Rafael Rodrigues

Filósofo, redator publicitário, promotor da ciência, roteirista de quadrinhos, professor de informática e pseudoblogueiro. Um homem que gosta de coisas simples, como Quadrinhos, Cinema e Ciência. Sabe, coisas normais.

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