O amigão da Vizinhança - Final

No post anterior:
O cabeça de teia enfrenta muitos desafios, inclusive alguns vilões bastante ligados à ele. O tempo passa, o herói amadurece e se casa. E agora? Será o fim do nosso amigo da vizinhança?

“Enquanto isso, na banda desenhada...” é uma seção que traçar um paralelo entre o universo real e o mundo dos quadrinhos, analisando como as duas realidades afetam uma à outra, trazendo informação e estimulando a reflexão acerca dessa 8ª arte.




Com Grandes poderes, tudo é mágica e não precisamos explicar!

Os anos 80 foram um período sombrio para os quadrinhos. Watchmen e o Cavaleiro das Trevas contribuíram muito para uma era menos heróica e mais “dark”, mas a verdade é que o mercado estava, desde os anos 70, lentamente se dirigindo para uma era menos inocente e mais realista. Com o Aranha não foi diferente. Na metade dos anos 80, a Marvel lançou o grande crossover Guerras Secretas, que trouxe mudanças para alguns personagens da Marvel, principalmente para o cabeça de teia. Em Guerras Secretas, o alienígena humanóide Beyonder leva heróis e vilões para um planeta desconhecido para lutarem entre si; lá, Peter encontrou uma pedra que continha um material que impregnou-se em seu corpo, originando um novo uniforme. Conhecido como Uniforme negro, esse período mostrou que as histórias do aranha estavam deixando de ser apenas sobre um adolescente tímido que também era super-herói, e passou a ser sobre um homem que já sabia muito bem o que estava fazendo. Peter usou o uniforme negro por um bom tempo após a saga, mas logo ele descobriria que aquele não era apenas um uniforme, e sim um simbionte alienígena, que o estava prejudicando. Peter se livrou do simbionte, mas este encontrou outro hospedeiro, o repórter Eddie Brock e a fusão dos dois deu origem à primeira versão do vilão mais popular do herói: Venom.

Após o casamento, vieram os anos 90, e com ele as conseqüências do fim da inocência nos quadrinhos. Com o advento da Image Comics, que traziam heróis mais sombrios, “badasses” e sempre com um trabuco na mão (mesmo tendo superpoderes), o mercado passou cada vez mais a investir em anti-heróis e os heróis clássicos começaram a perder terreno em uma época em que pareciam que eles não se encaixavam mais. Marvel e DC tiveram de mudar a direção dos seus personagens para se adaptar aos novos tempos, o que causou o maior número de histórias de impacto comercialmente, mas as histórias mais descartáveis em termos de narrativa. Foi a época em que acharam uma boa idéia envolver os X-men em uma X-salada de frutas de viagens no tempo, tornar o Lanterna Verde um vilão, aleijar o Batman e matar o Superman. Apesar da Marvel ter se saído um pouco melhor que a DC (o Capitão América teve ótimas histórias nesse período), também teve seus revezes. E o principal deles foi, justamente, com o Homem-Aranha, na saga que a maioria dos leitores faz questão de esquecer: A saga do clone.

Não vou dar muitos detalhes da trama, mas basta saber que essa saga envolveu um vilão chamado Chacal, que anos antes havia clonado Peter e Gwen. O resultado foi uma história em que Gwen Stacy retorna, Mary Jane fica grávida e um outro Peter Parker chamado de Ben Reilly aparece dizendo ser o verdadeiro. Foi um verdadeiro samba da aranha doida onde uma série de “reviravoltas” criou novos vilões, trouxe de volta antigos (incluindo o já morto Norman Osborn, vulgo Duende Verde) e Ben, o clone do Peter que aparecera dizendo que era o verdadeiro Peter, era realmente o verdadeiro Peter, e o Peter que protagonizou as histórias das revistas por tantos anos, não era o verdadeiro afinal e foi morar em outra cidade com a grávida Mary Jane. Confuso? Bom, você não foi o único que achou isso.

A idéia aqui era novamente levar Peter de volta às origens, tornando-o solteiro e restabelecendo seu status quo original. O problema é que a história era tão confusa e mal executada (sem contar que era uma desculpa difícil de engolir e soava como um grande engodo) que foi extremamente mal-recebida pelo público e pela crítica. A solução foi desfazer o que havia sido feito revelando que sim, o Aranha que era o verdadeiro e se mostrou sendo o falso era mesmo o verdadeiro e o falso que se mostrou sendo o verdadeiro era mesmo o falso (!). Resumindo, tudo voltara a ser como era antes. Ah, e a filha de Peter e Mary Jane nasceu morta (na verdade, ela foi seqüestrada por uma seita, e disseram a eles que a garota havia nascido morta). Com o fim dessa saga, o Homem-Aranha poderia finalmente retornar aos seus tempos áureos de boas e simples histórias. Infelizmente, não foi bem assim que aconteceu.

Quando Joe Quesada assumiu o posto de editor chefe da Marvel, ele conquistou o respeito dos leitores por ter trazido, aos poucos, boas histórias para o universo Marvel, e inclusive para o Aranha. Mas uma coisa ele sempre deixou claro: considerava Peter casado um erro. Para ele, isso envelhecia o personagem, e o distanciava de suas raízes e fazia com que ele não mais se identificasse com seus leitores (É impressão minha ou já ouvimos isso antes?). No entanto, matar Mary Jane ou divorciar os personagens era, para ele, uma decisão tão ruim quando tê-lo casado. O impasse durou um bom tempo, e tentativas de deixar o Aranha solteiro não faltaram, mas todas acabaram falhando.

Quem compartilhava da visão de Quesada era J. Michael Straczinsky, que escreveu as histórias do Aranha até recentemente. Inicialmente, Straczinsky começou bem: colocou Peter de volta à escola (agora ele era professor), fez a Tia May “descobrir” o segredo do Aranha, e as histórias deixaram de ter como pano de fundo personagens cósmicos, clones e coisas do tipo, voltando aos supervilões bairristas e criminosos básicos, como nos velhos tempos. Era um Peter mais maduro, mas com histórias que ainda lembravam o velho Aranha. Mas como tudo o que é bom dura pouco, Straczinsky fez mudanças no personagem, não só em seu status quo, mas em sua estrutura básica ao retconizar (introduzir mudanças no passado do personagem) o herói, determinando que seus poderes eram, na verdade de ordem mística. Junto à isso, ele era dono de uma longa tradição de seres escolhidos pare ter “Poderes de aranha”, e “evoluiu” de forma a possuir novos e estranhos poderes. Este já não era o Aranha que conhecíamos.

Como desgraça pouca é bobagem, além de novas e bizarras habilidades, uma origem mística (ao contrário da original, voltada à ficção científica) e sagas desnecessárias, Straczinsky conseguiu piorar a situação com mais um retcon, onde descobrimos que Gwen Stacy havia perdido sua virgindade com NORMAN OSBORN! Sim! E pior, ela teve filhos (gêmeos), que, devido à efeitos colaterais do soro que dava à Osborn os poderes de Duende Verde fez com que eles envelhecessem mais rápido do que o normal. Além disso, Osborn os fez acreditar que Peter era o verdadeiro pai deles e os haviam abandonado. Uma saga desnecessária, ofensiva e cheia de clichês que provocou a fúria dos fãs, mas que aumentou as vendas das revistas.

Você deve ter pensado “Meu Deus! Não pode ficar pior!” Mas ficou. Lembra que eu falei que Straczinsky era adepto da idéia de Quesada do Aranha solteiro? Pois é, ele tentou isso antes, mas dessa vez ele iria muito mais além: Na história “One More Day”, Tia May fica à beira da morte e ninguém no Universo Marvel (!) consegue fazer nada para ajudar, e Mefisto (um dos vilões do Universo Marvel, que representa Satanás, por assim dizer) se oferece para salvar a vida dela em troca das lembranças do casamento de Peter e Mary Jane. Eles aceitam a proposta, Tia May é salva e a história do Aranha, dessa vez não é retconizada, mas sim “resetada”, ou seja; ele volta a ser um adolescente, nunca casou com Mary Jane, Harry Osborn (seu amigo, que estava morto) está vivo, entre outras coisas. Agora sim o Aranha voltara a ser o Aranha dos velhos tempos, literalmente. Mas a que preço?

Atualmente, as histórias do Homem-Aranha estão passando pela saga “Brand New Day”, que nada mais é do que uma série de histórias que visa situar o leitor na nova linha de tempo do Aracnídeo. Apesar de “One More Day” ter sido duramente criticada, as vendas das revistas após a saga aumentaram consideravelmente, o que deu à Marvel a certeza de que eles tomaram a decisão certa. Pelo menos em termos de vendagem.

Homem-Aranha é um dos maiores ícones dos quadrinhos, e um dos responsáveis pelas grandes mudanças do mercado. É uma pena que, assim como Peter sofre em suas histórias, o personagem também sofre com idéias nocivas, histórias mal-conduzidas e decisões arbitrárias. Esperamos que, um dia, o sofrimento do herói fique apenas na ficção.

FIM


Epílogo: Curiosidades
- Guerras Secretas, saga que envolveu todos os personagens da Marvel Comics, teve uma ótima sacada: enquanto a história transcorria nas edições da saga, nas história mensais, os personagens já viviam histórias após a saga; o Aranha, por exemplo, numa edição foi para o planeta do Beyonder, e na edição seguinte, já estava de volta com o uniforme Negro. Para saber o motivo das mudanças, o leitor teria que ler toda a saga da Marvel. Estratégia semelhante foi feita recentemente pela DC Comics em “One Year Later” e na saga semanal 52;
- Apesar de eu particularmente não gostar do período “sombrio” do Homem-Aranha, ele deu origem a uma das melhores histórias protagonizadas pelo cabeça de teia: A última caçada de Kraven. Nela, Peter é literalmente enterrado vivo pelo vilão, numa história excelente que mostra como era possível continuar fazendo boas histórias com o personagem, mesmo casado. Só era preciso bons roteiristas
- Ainda sobre a Úlitma caçada de Kraven, originalmente ela havia sido concebida para ser uma história do Batman; como o autor não conseguiu vender sua idéia para a DC, a reformulou usando o Aranha como herói e o Kraven como vilão e um clássico do Homem Aranha estava criado;
- No Universo Marvel MC2 (Um futuro alternativo do Universo Marvel), May “May Day” Parker (a filha de Peter e Mary Jane) não morreu e assumiu o manto de seu pai, tornando-se a Garota-Aranha. Ela inclusive tem revista própria, que apesar de não ter grande vendagem, possui leitores bastante fiéis, que já evitaram o cancelamento da revista pelo menos umas 3 vezes (se não me engano);
- Duas situações ocorreram na vida de Peter nos quadrinhos devido aos filmes do herói: A primeira foi quando ele descobriu a origem mística dos seus poderes e evoluiu com teias orgânicas não mais disparadas pelos lançadores artificiais; a segunda foi o retorno ao uniforme Negro.


A seguir: O último rapaz da Terra!

Nome do Autor

Rafael Rodrigues

Filósofo, redator publicitário, promotor da ciência, roteirista de quadrinhos, professor de informática e pseudoblogueiro. Um homem que gosta de coisas simples, como Quadrinhos, Cinema e Ciência. Sabe, coisas normais.

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