Terror e Hqs

Me faz um favor?
Não grite.
Apenas ouça o que eu tenho a dizer...
E depois grite.
O Colecionador, personagem de um dos episódios de Contos da Cripta




Tema Macabro


Desde que iniciei essa coluna, muito pouco falei sobre o terror dentro dos quadrinhos. Isso se deve muito ao fato de que os quadrinhos de terror hoje ficam um pouco à margem de outros gêneros dentro dessa mesma mídia, e pouco apelo têm para o público em geral, apesar de isso estar mudando um pouco. Antigamente, contundo, não era bem assim. Numa época onde o monstro da ditadura ameaçava devorar a todos nós, o Brasil era um país que consumia muitas HQs. E um dos principais responsáveis por popularizar os quadrinhos aqui no Brasil entre os adultos foram as histórias de terror.

Embora eu sinta a tentação de aqui falar tudo sobre o gênero (desde à história do terror nos quadrinhos até o terror nos quadrinhos contemporâneos) vou me conter, pois é muita coisa e o espaço é curto.

Foi no início dos anos 80 que comecei a ler quadrinhos, e duas revistas são responsáveis por isso: Novos Titãs, da DC Comics (qual criança não quer ler sobre heróis adolescentes?) e A tumba de Drácula. Obviamente, eu não comprava a Tumba de Drácula, era uma revista muito assustadora (para uma criança de 8, 9 anos da época); quem comprava era minha mãe, que sempre foi grande apreciadora do gênero. Eu, como todo bom nerd, era curioso, e acabei lendo essas histórias que claramente não eram para mim. E esse foi o meu primeiro contato com o mundo dos quadrinhos de terror.

Hoje em dia, muita gente confunde o terror clássico com thrillers sanguinolentos; filmes como Jogos Mortais e o Albergue apenas reforçam a idéia de que terror bom tem que ter cenas fortes e muito sangue. Mas não é bem assim que as coisas funcionam. As histórias de terror clássicas eram, na verdade, dramas filosóficos disfarçados de terror, onde o sobrenatural era na verdade metáforas para a condição humana, seus medos, seus pesadelos e, principalmente, o desconhecido. Pessoas atormentadas por seus próprios medos subconscientes, narrativas metalingüísticas e idiossincrasias psicológicas eram as ferramentas para se criar uma história assustadora, onde o que importava era o clima, a tensão, e no caso das verdadeiras histórias de terror, finais nada agradáveis.



No caso dos quadrinhos nós tínhamos, além de histórias marcadas por esses elementos, muito erotismo e uma arte que geralmente dava o clima certo para a história. Eu, particularmente, adorava as capas de revistas como Kripta, Frankestein, Kripta do Terror, Vampirella, entre outros. Belíssimas capas ilustradas a mão, davam o tom necessário para as publicações (cujo miolo, pelo menos aqui no Brasil, geralmente eram em preto e branco) e, diferente de hoje em dia, mostravam que fazer uma história em quadrinhos de terror era mais do que entretenimento. Era arte.

As editoras mais conhecidas na época eram a EC Comics (que já tinha sido extinta nos EUA, mas que ainda tinha histórias publicadas aqui) e a Bonelli Comics (Italiana). Aqui no Brasil, histórias de terror foram publicadas por diversas editoras, como a RGE, Ediouro, EBAL, Bloch, Record, Vecchi, entre outras, que publicavam tanto material nacional quanto internacional. Entre as HQs mais populares do período estavam Contos da Cripta (que virou série de TV), Elvira – a Rainha das Trevas e Vampirella nos EUA. No Brasil, também faziam muito sucesso HQs 100% nacionais, como O Morto do Pântano (que não é um plágio do Monstro do Pântano), Mirza – a mulher Vampiro e Zé do Caixão, entre outros.



Entre as grandes editoras de quadrinhos, o terror não ficava de fora. A DC tinha Monstro do Pântano, a Casa dos Mistérios e a Casa dos Segredos, Vingador Fantasma, entre outros, enquanto a Marvel tinha o Homem-Coisa, além de uma série onde Drácula em pessoa encontrava-se com diversos personagens da Marvel.

Foram muitos os artistas que contribuíram para a ascensão do gênero, tanto aqui quanto lá fora. Berni Wrightson e Frank Frazetta estavam entre os mais reconhecidos de sua época nos EUA, enquanto que Eugênio Colonnese era um dos mais reconhecidos por aqui. É até injustiça não citar todos os artistas, principalmente os brasileiros que contribuíram nesse período, mas prometo um dia fazer uma matéria mais extensa sobre o assunto.

Para quem quiser conhecer mais sobre os quadrinhos de terror, sua história e sua passagem marcante pelo Brasil, dêem uma passada no site Nostalgia do Terror, disparado a melhor referência do gênero no país. Histórico, editoras, capas, reportagens, contos, e tudo o que você puder imaginar sobre esse fascinante e assustador mundo.

E foi nesse cenário que eu cresci. Lendo, além de histórias de super-herói, histórias de Terror, o que fez eu me tornar um entusiasta dos dois gêneros, motivo pelo qual resolvi fazer este post. Infelizmente, não demorou muito para essas histórias assustadoras serem sepultadas por um terror mais real chamado COMICS CODE. Mas isso é uma outra história.

Curiosidade:
Eugênio Colonnese, um dos grandes nomes do quadrinho de terror no Brasil criou diversos personagens, entre os mais famosos Mirza, a mulher Vampiro, e o Morto do Pântano. No segundo caso, é impressionante a semelhança do personagem com o Monstro do Pântano (DC Comics, EUA) e o Homem-Coisa (Marvel Comics, EUA). Mas, acredite se quiser, o personagem de Colonnese foi criado pelo menos cinco anos antes desses dois.



Na Próxima Madrugada: O espaço é infinito. E o terror no espaço também. Na próxima semana, O Enigma do Horizonte.

Nome do Autor

Rafael Rodrigues

Filósofo, redator publicitário, promotor da ciência, roteirista de quadrinhos, professor de informática e pseudoblogueiro. Um homem que gosta de coisas simples, como Quadrinhos, Cinema e Ciência. Sabe, coisas normais.

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